Brainrot: por que conteúdos da internet estão deixando crianças mais ansiosas

Como jogos e vídeos hiperestimulantes da internet afetam o cérebro infantil, aumentam ansiedade e podem agravar sintomas de TDAH.

Você já percebeu que algumas crianças ficam mais agitadas, ansiosas ou irritadas depois de passar muito tempo assistindo vídeos ou jogando certos conteúdos da internet? Nos últimos anos, um tipo específico de mídia digital tem se popularizado entre crianças e adolescentes e recebeu um apelido curioso: “brainrot”. São vídeos e jogos extremamente rápidos, caóticos e surrealistas, que parecem engraçados à primeira vista, mas que podem ter efeitos importantes sobre o cérebro em desenvolvimento.

Conteúdos conhecidos entre crianças e adolescentes como “brainrot” têm chamado a atenção de pais, educadores e profissionais de saúde porque muitas vezes parecem deixar a criança mais ansiosa, agitada ou compulsiva após longos períodos de exposição. Embora não exista um “derretimento do cérebro” literal, há mecanismos neurobiológicos que ajudam a explicar por que esse tipo de estímulo pode gerar esse efeito, especialmente em cérebros em desenvolvimento.

Um dos principais fatores é a hiperestimulação do sistema de recompensa cerebral, conhecido como Dopamine Reward System. Jogos e vídeos desse estilo são desenhados para produzir pequenas recompensas frequentes: mudanças rápidas de cena, sons curtos, conquistas digitais, pontos e estímulos visuais chamativos. Cada um desses eventos gera pequenas descargas de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. Quando essas descargas ocorrem de forma muito frequente, o cérebro passa a se acostumar com níveis altos de estímulo e pode começar a sentir menos satisfação em atividades mais lentas ou naturais, como ler, conversar ou brincar de forma livre. Como consequência, a criança pode ficar mais inquieta, irritada ou ansiosa quando não está exposta a esses estímulos intensos.

Outro aspecto importante é a sobrecarga sensorial e cognitiva. Conteúdos “brainrot” frequentemente misturam imagens surrealistas, sons repetitivos, mudanças rápidas de narrativa e humor absurdo. Essa combinação exige muito do sistema de atenção e autorregulação, funções que dependem do Prefrontal Cortex. Essa área do cérebro é responsável por planejamento, controle da atenção e regulação emocional, e ainda está em processo de maturação durante a infância e adolescência. Quando a criança recebe uma avalanche de estímulos simultâneos e desconectados, o cérebro pode entrar em estado de fadiga mental, o que se manifesta como irritabilidade, dificuldade de concentração ou ansiedade.

Além disso, muitas dessas imagens são deliberadamente estranhas ou grotescas. O cérebro humano possui sistemas automáticos de detecção de ameaça ou novidade, associados a estruturas como a Amigdala. Mesmo quando a criança percebe essas imagens como engraçadas ou absurdas, o cérebro pode interpretá-las como imprevisíveis ou potencialmente ameaçadoras. Isso ativa sistemas de alerta do organismo, mantendo o sistema nervoso em estado de maior vigilância. Quando essa ativação ocorre repetidamente, pode favorecer sensação de tensão interna ou dificuldade de relaxar.

Outro mecanismo relevante é a fragmentação da atenção. Conteúdos digitais desse tipo utilizam cortes extremamente rápidos e múltiplos estímulos simultâneos. O cérebro se adapta a esse ritmo acelerado e passa a ter mais dificuldade de sustentar a atenção em tarefas que exigem continuidade, como estudar, ouvir uma explicação ou ler um texto. Essa dificuldade gera frustração, e a criança muitas vezes busca novamente o estímulo digital intenso para recuperar a sensação de recompensa e excitação mental.

É importante observar que crianças com maior sensibilidade neurológica podem reagir ainda mais intensamente. Crianças com características de TDAH, ansiedade, traços obsessivos ou alta sensibilidade sensorial frequentemente apresentam sistemas de recompensa mais reativos e maior busca por estímulos intensos. Para esses cérebros, conteúdos altamente estimulantes podem se tornar particularmente atraentes e difíceis de interromper. Ao mesmo tempo, eles podem aumentar a agitação mental, a impulsividade ou comportamentos compulsivos.

Neurocientistas também têm observado um fenômeno interessante: conteúdos absurdos, caóticos ou surrealistas da internet parecem ser especialmente atrativos para cérebros jovens, que estão em fase de exploração e aprendizagem rápida. Esse tipo de estímulo ativa simultaneamente curiosidade, surpresa e recompensa, criando um ciclo de atenção difícil de interromper. Em cérebros com tendência a hiperfoco – como frequentemente ocorre em crianças com TDAH ou perfis neurodivergentes – esse ciclo pode se tornar ainda mais intenso.

Na prática clínica, muitos profissionais observam que a redução significativa desse tipo de conteúdo digital pode ajudar na melhora de sintomas como ansiedade, irritabilidade, dificuldade de atenção e até alguns comportamentos compulsivos. O cérebro infantil precisa de tempo e experiências variadas para desenvolver a capacidade de lidar com estímulos mais lentos, previsíveis e emocionalmente reguladores.

Assim, o problema não está apenas no jogo ou no vídeo em si, mas no padrão de estímulos extremamente intensos e fragmentados que eles oferecem ao cérebro em desenvolvimento. Quando esse padrão se torna predominante, ele pode alterar temporariamente a forma como a criança percebe recompensa, atenção e regulação emocional. A boa notícia é que o cérebro infantil é altamente plástico e, com ajustes no ambiente e nos hábitos digitais, costuma recuperar rapidamente sua capacidade natural de equilíbrio.

Portanto, para proteger a saúde mental e emocional do seu filho, é fundamental que os pais fiquem atentos aos jogos e conteúdos digitais que geram ansiedade, agitação e distração excessiva. Alguns exemplos que eu não recomendaria não permitir, nem com controle de tempo, incluem Roblox, Steal a BrainRot e outros jogos com recompensas rápidas e estímulos constantes, projetados para prender a atenção da criança. Esses jogos liberam pequenas doses de excitação no cérebro a cada ação, mantendo crianças e adolescentes em estado de alerta e dificuldade de foco. Além disso, existem muitos outros jogos, e é muito importante então que você, como pai ou mãe, entre no jogo e jogue um pouco, para sentir o ritmo e a intensidade dos estímulos. Evite permitir que seu filho coloque dinheiro nesses jogos, pois aumenta estes mecanismos de satisfação e recompensa e pode criar uma relação não saudável do seu filho com o dinheiro, no futuro. Além disso, evite que crianças assistam vídeos virais no YouTube e em redes sociais com imagens surreais, bonecos do estilo BrainRot ou conteúdos caóticos que reforçam ansiedade e agitação.

Também é importante lembrar que este texto aborda apenas os efeitos neuropsicológicos do excesso de estímulos digitais. Ele nem chega a discutir outros riscos reais presentes em muitos ambientes de jogos e plataformas online, como exposição precoce a conteúdos inadequados, pornografia, assédio entre jogadores, manipulação comercial e contato com desconhecidos. Esses riscos existem e exigem atenção ativa de pais e responsáveis na mediação do uso digital das crianças.

Se você é pai ou mãe e tem um filho com sinais de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), saiba que existem caminhos de cuidado além de remédios convencionais como as anfetaminas (Ritalina). A Homeopatia e a Medicina Integrativa podem ajudar no equilíbrio emocional, na autorregulação e na organização do sistema nervoso da criança. Realizo atendimento em Lajeado, Santa Cruz do Sul ou também online, e ficarei feliz em ajudar sua família a compreender melhor o que está acontecendo e construir estratégias de tratamento e desenvolvimento mais saudáveis para o seu filho. Agende sua consulta!

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