Para onde vai o remédio que você toma?
Resíduos de antidepressivos e outros remédios controlados já foram encontrados em rios brasileiros, em peixes e até em tubarões. Isso não é motivo para culpa nem para parar um tratamento. É um convite para cuidar da saúde com mais escuta e menos pressa.
Todos os dias, no consultório, eu ouço histórias parecidas. Mulheres que tomam o mesmo antidepressivo há anos sem nenhuma reavaliação. Pais preocupados com a medicação do filho. Pessoas mais velhas que já não sabem para que serve cada comprimido da caixinha.
Quase sempre a conversa é sobre efeitos colaterais no corpo. Mas existe um efeito que quase ninguém comenta: o que acontece com esse remédio depois que ele sai de nós.
Remédios nos rios: o que os estudos encontraram
A presença de antidepressivos em rios já é bem documentada, inclusive no Brasil.
| Onde | O que foi encontrado | Fonte |
|---|---|---|
| Rio Piracicaba (SP) | Fluoxetina, sertralina, citalopram e venlafaxina: os quatro antidepressivos pesquisados foram detectados | Dissertação USP, 2021 |
| Rio Tietê (SP) | Antidepressivos, estabilizadores de humor, remédios para pressão e anticonvulsivantes, da nascente à foz | SBT News, Expedição Tietê 2025 |
| Litoral do Rio de Janeiro | Sertralina no tecido cerebral de tubarões-martelo (estudo da UFRJ ainda em publicação) | Conselho Federal de Farmácia, 2026 |
| 258 rios em todos os continentes | Resíduos de dezenas de fármacos; níveis potencialmente tóxicos em mais de um quarto dos locais | Revista Pesquisa FAPESP sobre estudo da PNAS, 2022 |
As águas subterrâneas também entram nessa conta. Uma revisão brasileira mostra que fármacos chegam a águas superficiais e subterrâneas, embora os estudos no lençol freático ainda sejam poucos (Revista Águas Subterrâneas). Em Londrina (PR), fármacos foram detectados na água subterrânea, em concentração menor que nos córregos (Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos).
Como o remédio chega até o rio
A principal via é o próprio corpo. Pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte estimam que até 90% dos antidepressivos passam pelo organismo e seguem para o esgoto, e que eles são difíceis de remover no tratamento da água (Newswise / ACS).
A segunda via é o descarte errado: comprimidos vencidos jogados no lixo comum, na pia ou no vaso sanitário.
Onde o saneamento é precário, o problema cresce. O estudo global publicado na PNAS associou os rios mais contaminados a regiões com tratamento de esgoto e de lixo deficiente (USGS).
O impacto na cadeia alimentar e no ambiente
Os antidepressivos não ficam só na água: eles entram nos animais e sobem pela cadeia alimentar. Veja abaixo como ocorre esse ciclo:
- A água recebe o resíduo. Ele chega pelo esgoto em pequenas quantidades, mas todos os dias.
- Os peixes absorvem. No rio Niagara, entre os EUA e o Canadá, pesquisadores encontraram antidepressivos no cérebro de todas as dez espécies de peixes estudadas. Os peixes absorvem pelas brânquias e ao comer peixes menores (Universidade de Buffalo, 2017).
- O resíduo se acumula. Nesses peixes, a concentração no cérebro chegava a ser várias vezes maior que a da água do rio, e os maiores níveis apareciam nos peixes maiores, que comem outros peixes (Bridge Michigan).
- O comportamento muda. Em um estudo de cinco anos com peixes expostos à fluoxetina, eles perderam a capacidade de ajustar o comportamento e a forma de lidar com o risco (Canaltech, sobre o Journal of Animal Ecology). Em trutas, a sertralina reduziu o reflexo de fuga e a imunidade (estudo com truta-arco-íris).
- O ecossistema sente. Peixe que não foge do predador, que se alimenta pior ou se reproduz menos afeta toda a teia: quem ele come e quem come ele. Os pesquisadores do Niagara tratam isso como um problema de biodiversidade (WCMU).
E ninguém toma só um remédio de cada vez. Os rios recebem uma mistura de antidepressivos, ansiolíticos, anti-hipertensivos e antibióticos, e o efeito dessa combinação ainda é pouco conhecido.
E para nós, humanos?
Aqui é preciso ser honesta: até agora, os níveis encontrados nos peixes não representam, segundo os pesquisadores, perigo comprovado para quem os come. Os próprios autores do estudo do Niagara afirmaram isso (EarthSky).
Na água da torneira, os números também são muito baixos. Em Hangzhou, na China, os antidepressivos ficaram abaixo do limite de detecção na água tratada (Frontiers in Public Health, 2022).
O alerta, então, não é de intoxicação imediata. É sobre exposição contínua, misturas pouco estudadas e um ambiente do qual todos nós dependemos. Rio doente é sinal de um modo de viver que também adoece.
Não pare o seu remédio. Faça isto
Se você usa antidepressivo, ansiolítico ou qualquer remédio controlado, este texto não é um pedido para parar. A suspensão por conta própria pode trazer sintomas de abstinência e recaída. O que você pode fazer:
- Converse com quem prescreveu. Pergunte se a dose e o tempo de uso ainda fazem sentido para você hoje.
- Peça uma revisão de todos os remédios. Leve as caixinhas na consulta, principalmente se você usa vários ao mesmo tempo.
- Descarte certo. Remédio vencido ou que sobrou não vai no lixo, na pia nem no vaso. Leve até uma farmácia com coletor de medicamentos.
- Cuide do terreno. Sono, alimentação, movimento, vínculos e acompanhamento emocional fazem parte do tratamento, não são detalhes.
Medicina integrativa e homeopatia em Santa Cruz do Sul e Lajeado
A medicina integrativa olha para a pessoa inteira: corpo, emoções, história, rotina e ambiente. A homeopatia é especialidade médica reconhecida no Brasil e parte desse olhar.
No meu consultório em Santa Cruz do Sul e em Lajeado, a consulta começa com tempo e escuta. Eu atendo pessoas do Vale do Rio Pardo e do Vale do Taquari que buscam:
- Cuidado para ansiedade, depressão e esgotamento, com escuta profunda
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Não se trata de ser contra a medicina convencional. Trata-se de construir, junto com você e com os outros profissionais que te acompanham, um cuidado que faça sentido para a sua vida.
Perguntas frequentes
Antidepressivos realmente chegam aos rios?
Sim. No Brasil, eles já foram detectados no rio Piracicaba e no rio Tietê, e sertralina foi encontrada em tubarões no litoral do Rio de Janeiro.
Comer peixe faz mal por causa disso?
Com os níveis medidos até hoje, não há risco comprovado para quem come peixe. A preocupação maior é com os animais e o equilíbrio dos rios.
Devo parar meu remédio controlado por causa do meio ambiente?
Não. Nunca suspenda um remédio controlado por conta própria. Converse com o médico que prescreveu.
Onde descartar remédios vencidos?
Em farmácias que tenham coletor de medicamentos. Nunca no lixo comum, na pia ou no vaso.
Onde encontrar uma médica homeopata em Santa Cruz do Sul ou Lajeado?
Eu atendo nas duas cidades. O agendamento está logo abaixo.
A homeopatia substitui o tratamento psiquiátrico?
A decisão é sempre individual e feita com acompanhamento. A medicina integrativa pode caminhar junto com outros tratamentos.
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Dra. Sofia Bittencourt
Médica Homeopata
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Não altere nem suspenda nenhum tratamento sem orientação profissional.
Referências
- Ocorrência e ecotoxicidade de antidepressivos no Rio Piracicaba | Dissertação USP
- Rio Tietê não tem mais nenhum trecho livre de poluição | SBT News
- Antidepressivo encontrado no cérebro de tubarões | Conselho Federal de Farmácia
- Medicamentos poluem rios em todos os continentes | Revista Pesquisa FAPESP
- Pharmaceutical pollution of the world’s rivers | USGS / PNAS
- Fármacos e produtos de cuidado pessoal na água subterrânea | Revista Águas Subterrâneas
- Fármacos em águas superficiais e subterrâneas do Ribeirão Cambé | SBRH
- Antidepressants found in fish brains in Great Lakes region | University at Buffalo
- Antidepressivos descartados nos rios afetam reprodução de peixes | Canaltech
- Monitoring reveals elevated antidepressant levels in some waterways | Newswise
- Antidepressants as emerging contaminants in Hangzhou | Frontiers in Public Health