Medicina Integrativa e Câncer: o que é e como pode ajudar?

Medicina integrativa e câncer: veja como terapias complementares com evidência podem apoiar o tratamento oncológico com segurança, sem substituí-lo.

O tratamento do câncer passou por uma transformação importante nas últimas décadas. Além da cirurgia, quimioterapia e radioterapia, hoje dispomos de imunoterapia, terapias-alvo, hormonioterapia e outras estratégias cada vez mais específicas para diferentes tipos e estágios da doença. Ao mesmo tempo, cresceu o interesse por abordagens que possam contribuir para o controle de sintomas, a tolerância ao tratamento, a funcionalidade e a qualidade de vida.

Medicina integrativa e câncer: o que é a oncologia integrativa

É nesse contexto que se desenvolve a oncologia integrativa, uma área que busca associar ao tratamento oncológico convencional intervenções complementares que apresentem evidências de eficácia e segurança, considerando as características clínicas e individuais de cada paciente.

A medicina integrativa não propõe substituir o tratamento do câncer por terapias naturais ou alternativas. Essa distinção é fundamental. Quando uma intervenção é utilizada no lugar de um tratamento oncológico indicado, estamos diante de uma abordagem alternativa, e não integrativa. A medicina integrativa parte de outra lógica: manter o tratamento convencional e avaliar quais outros recursos podem contribuir para o cuidado do paciente.

O que dizem as diretrizes científicas

Essa abordagem vem sendo incorporada progressivamente à própria medicina baseada em evidências. Diretrizes elaboradas pela Society for Integrative Oncology em conjunto com a American Society of Clinical Oncology (ASCO) reconhecem determinadas intervenções integrativas para situações específicas durante o tratamento do câncer. No manejo da dor, por exemplo, há recomendações para o uso de acupuntura em algumas situações, além de acupressão, reflexologia e massagem em contextos determinados. A força dessas recomendações varia conforme a intervenção e o tipo de sintoma, e diversas outras terapias ainda apresentam evidências insuficientes ou inconclusivas. [1]

Fitoterapia e suplementação: natural não significa seguro

A fitoterapia e a suplementação exigem atenção especial durante o tratamento oncológico. Existe uma percepção frequente de que produtos naturais são necessariamente seguros, mas essa premissa não é verdadeira. Plantas medicinais e suplementos biologicamente ativos podem modificar a absorção, o metabolismo ou a eliminação de medicamentos e, consequentemente, interferir na eficácia ou na toxicidade de determinados tratamentos contra o câncer. O National Cancer Institute descreve, por exemplo, interações envolvendo a erva-de-são-joão, grapefruit e componentes concentrados do chá-verde com diferentes medicamentos utilizados em oncologia. [2]

Por esse motivo, a pergunta clínica não deve ser simplesmente se determinado suplemento é “natural” ou “bom para a imunidade”. É necessário avaliar:

  • se existe indicação para aquela pessoa;
  • qual a dose utilizada;
  • qual o medicamento oncológico em uso;
  • quais são as possíveis interações;
  • quais evidências existem para o objetivo pretendido.

Vitaminas, minerais e nutrição

O mesmo raciocínio se aplica às vitaminas e minerais. A suplementação pode ser apropriada quando existe deficiência documentada, ingestão insuficiente, alteração da absorção ou outra indicação clínica. A nutrição, por sua vez, possui um papel relevante no cuidado do paciente oncológico. O objetivo não é estabelecer uma suposta “dieta anticâncer”, mas adequar a alimentação às necessidades metabólicas, nutricionais e clínicas de cada paciente.

Fitoterapia em situações específicas

A fitoterapia pode ser considerada em situações específicas, mas deve seguir o mesmo princípio de avaliação individual. O gengibre é um exemplo interessante. Ele foi estudado em ensaios clínicos e revisões sistemáticas para náuseas e vômitos relacionados à quimioterapia. Uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados publicada no Cancer Nursing encontrou resultados favoráveis. Além do gengibre, outros fitoterápicos com estudos para câncer são: extrato de graviola, ashwagandha, ipê-roxo, entre outros. [3]

Homeopatia como abordagem complementar

A homeopatia ocupa uma posição particular dentro desse cenário. Existem estudos clínicos avaliando seu uso como abordagem complementar em pacientes submetidos a tratamento oncológico, especialmente em relação a sintomas, toxicidade do tratamento e qualidade de vida. [4]

Individualizar também significa saber o que não fazer

O objetivo, portanto, não é utilizar o maior número possível de terapias. É selecionar, para cada paciente, aquelas que apresentam uma relação adequada entre benefício potencial, evidência científica, segurança e objetivos do tratamento.

Em alguns casos, isso significa acrescentar uma intervenção. Em outros, significa corrigir uma deficiência nutricional, tratar um sintoma, ajustar hábitos de vida ou simplesmente evitar o uso desnecessário de produtos que possam interferir no tratamento. Individualizar também significa saber o que não fazer.

Essa individualização é especialmente importante na oncologia porque não existe um único perfil de paciente com câncer. Uma pessoa com câncer de mama em hormonioterapia apresenta necessidades diferentes de alguém submetido à quimioterapia para câncer colorretal. Da mesma forma, o paciente em tratamento com intenção curativa terá objetivos diferentes daquele que está em cuidados paliativos. O tipo de tumor, estágio da doença, tratamento utilizado, medicamentos associados, exames laboratoriais, estado nutricional, sintomas e preferências individuais precisam ser considerados conjuntamente.

Como é a consulta de medicina integrativa em oncologia

Por isso, uma consulta de medicina integrativa em oncologia deve começar pela compreensão do tratamento que já está sendo realizado e pela identificação das necessidades específicas daquele paciente. A partir dessa avaliação, podem ser discutidas estratégias complementares, considerando individualmente sua utilidade, segurança e nível de evidência.

A proposta não é escolher entre a oncologia convencional e a medicina integrativa. É utilizar de maneira criteriosa os diferentes recursos disponíveis para cuidar da pessoa que está enfrentando o câncer, respeitando também as decisões do paciente e da sua família.

Na prática clínica, esse cuidado pode incluir orientações relacionadas a:

  • alimentação;
  • sono;
  • atividade física;
  • suplementação, quando indicada;
  • fitoterapia;
  • outras estratégias complementares.

A homeopatia também pode fazer parte de um acompanhamento individualizado.

O objetivo da medicina integrativa no tratamento do câncer

O objetivo da medicina integrativa em oncologia não é oferecer uma promessa de cura alternativa. É contribuir para que o paciente atravesse o tratamento com o melhor estado clínico, funcional e emocional possível, utilizando recursos complementares de maneira individualizada, criteriosa e compatível com o tratamento oncológico.

O atendimento de medicina integrativa é realizado em Lajeado, para pacientes de Santa Cruz do Sul e região, e também na modalidade online. Conheça mais sobre a Dra. Sofia Bittencourt.

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Aviso importante: este conteúdo tem caráter informativo e não substitui o acompanhamento com o médico oncologista ou com os demais profissionais responsáveis pelo tratamento. Suplementos, fitoterápicos e outras terapias complementares não devem ser iniciados ou suspensos sem avaliação profissional, especialmente durante o tratamento do câncer.

Referências

  1. Mao JJ, Ismaila N, Bao T, et al. Integrative Medicine for Pain Management in Oncology: Society for Integrative Oncology-ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology. 2022;40(34):3998-4024. doi:10.1200/JCO.22.01357.
  2. National Cancer Institute. Cancer Therapy Interactions With Foods and Dietary Supplements (PDQ®) – Health Professional Version. National Cancer Institute, 2024.
  3. Lin CY, Huang SH, Tam KW, Huang TW, Gautama MSN. Efficacy and Safety of Ginger on Chemotherapy-Induced Nausea and Vomiting: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trials. Cancer Nursing. 2025;48(6):455-466. doi:10.1097/NCC.0000000000001355.
  4. Wagenknecht A, Dörfler J, Freuding M, Josfeld L, Hübner J. Homeopathy effects in patients during oncological treatment: a systematic review. Journal of Cancer Research and Clinical Oncology. 2023;149(5):1785-1810. doi:10.1007/s00432-022-04054-6.

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